quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Casualidade refletida


A primeira luz que viu quando entrou naquele clube refletira no imenso globo prateado e percorreu toda sua pupila, fazendo uma leitura óptica de tudo que desejava daquela noite. Entre corpos estranhos e agitados, seguiu em direção ao objeto que reproduzia a imagem de alguém feliz e saudável. A excitação de ver seu reflexo impulsionaria seu corpo de volta à pista de dança. Estendeu a mão a quem lhe fazia companhia. Diferentes faces, alguns shots da melhor tequila e um badalado house proporcionaram uma distração rápida para o inesperado. Ambos levantaram os olhares que se encontraram por segundos e tornaram a abaixá-los. Por segundos, o som da boate pareceu desaparecer, junto com aquelas pessoas. Os pensamentos confundiam-se diante da surpresa. Estava diferente daquele que conhecera. Respirou fundo antes de sentir uma mão delicada pousar em seu ombro e dar um leve aperto. Sua melhor amiga transmitia-lhe força e coragem. Sua imediata reação foi o abraço. Aquele peito colado ao seu trazia-lhe conforto. Agradeceu por tê-la ao seu lado naquela hora. Precisou de um cigarro para tragar aquele encontro. A fumaça que passava por entre seus lábios ganhando a atmosfera, aos poucos, levou consigo a insegurança que aquela casualidade lhe fez inspirar. Mais uns passos, passos de dança, passos de distância, reconheceu aquele mesmo corpo colado a outro. Suas bocas comprimiam-se. Encarou aquela cena enquanto um desconhecido lhe encarava. Com semblante enigmático e aparentemente inabalável deu as costas ao indesejável aos olhos e inaceitável para o orgulho. A noite seguiu o rumo esperado desde então. Luzes, flertes, glamour. A única surpresa foi o olhar de quem conhecia, atravessar seu corpo enquanto um estranho falava-lhe ao pé do ouvido.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Limpando o closet

Em meio a livros, acessórios, peças de vestuário e remédios, toda bagunça produzida por alguns dias de reclusão em casa, o rubro do papel se destacou quase que ofuscando todos os outros objetos. Ele fingiu não ter visto, talvez porque soubesse desde já o que aquilo significava. Imediatamente passou a arrumar aquela sua desordem organizada. Dobrava cada roupa com velocidade beirando à inação. Colocou camisas e bermudas separadas, depois, por tipo de tecido e cor, numa sequência que lembraria uma aquarela. Reuniu e limpou cada par de sapatos que possuía. Um pano com algum produto de limpeza trouxe ao ambiente cheiro de orquídeas e lustrou o móvel. Amassou alguns papeis que não possuíam mais serventia, mas não conseguiu fazê-lo com aquele, em cima de sua cama, que mirava-o. Sentou-se e abriu rapidamente aquela que seria uma carta. Assinada e datada de seis meses atrás, trazia consigo muitas dúvidas e, ainda, amor. Por muito tempo vinha se perguntando se teria sido sua culpa, somente, o fim do seu romance. Se fora por falta de amor ou excesso dele. Cada passo que deu após o relacionamento inspirava crescimento e amadurecimento. Não sabia a razão do fim, mas tinha certeza de que o que ambos viveram e sentiram foi sincero e real. Cada linha daquela mensagem guardava o mais puro afeto do seu antigo amor. Elas narravam alguém confuso e desesperado por sentir algo tão forte e ter medo de machucar quem ama. Lágrimas pareciam estar sendo derrubadas enquanto as palavras se juntavam formando frases, compondo aquela triste nota de conclusão. Quem quer que tivesse acesso àquela, teria a impressão que se tratava de duas pessoas que ainda se amavam. Quando a última palavra foi lida a dúvida de meses desfez-se em segundos. Não por falta ou excesso, pela insegurança. A lágrima contida em seus olhos finalmente pode rolar pelo seu rosto encontrando um sorriso de satisfação. Pode parecer triste e melancólico, contudo trata-se de alguém que descobriu a tentativa do acerto face ao erro e a asserção de não mais repeti-lo. A felicidade também está no contentamento de quem descobre o progresso pessoal. Por um momento, ele pensou em jogá-la junto aos outros, mas mesmo limpando o “closet” que abriga o passado e seguindo em frente, algumas lembranças merecem permanecer preservadas.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Promessas e despedida



Deitados numa cama estreita decidiram a hora de partir. Caminharam até a porta, entreolharam-se e deram um beijo que se entendia por despedida. O que ficou, fixou atenção e vistas no caminho de quem partia, perdeu-se neste por alguns segundos. Fechou a porta e subiu as escadas passando por cada degrau lentamente, temendo se afastar ainda mais de quem partira. No outro quarto, dois outros corpos se tocavam, com ansiedade, desejo, saudade e também despedida, ouviu os sons dos gemidos soltando por entre as fendas da porta. Sentou-se numa poltrona. A pouca luz que entrava pela varanda da casa e a umidade das paredes a deixava triste, muito diferente dos momentos que vivera ali. O clima se fazia sombrio desta vez. Na vã tentativa de reviver os momentos, buscou na memória todos que podia. Quando a porta do quarto se abriu, era hora de arrumar sua bagagem. Dentro da mala, bons momentos, pessoas especiais e a vontade de permanecer. Não queria voltar pra realidade. Não sabia o que o esperava, não sabia para o que estava voltando. Mas sabia o que ficava para trás. No caminho para o embarque, piadas memoráveis para amenizar a dor da volta. Acomodado em seu assento, foi tomado por uma saudade em tom inesperado. Olhando pela janela do ônibus, deu-se conta que permanecera ali por pouco tempo posto a quantidade de coisas vividas, mas era apenas o inicio do verão.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Novas lembranças de um antigo mundo


Ao seu redor apenas uns carros. No chão, poeira e asfalto se confundiam. Acima dele, uma árvore de tronco bastante forte e intimamente ligada a terra por sua raiz funda, o cobria com sua sombra. Estava sentado em um banco num lugar bastante familiar. Esse foi o cenário escolhido para que pudesse espairecer e se acalmar. Lembrava daquele lugar muito bem. Não haveria de ser diferente, cada centímetro daquele pateo tinha marcas por ele deixadas. Memórias de sua infância logo vieram pousar sobre seus pensamentos. Brincadeiras, pessoas queridas, momentos, vida. Momentos que ficarão pra sempre em sua recordação. Amigos que a vida separou, mas que sempre carrega no coração, amigos que o acompanham até hoje e que aquela não há de afastar. Retornou àquele lugar, onde fora menino, agora homem. Percebeu o peso de tal mudança e já não se reconhecia mais com aquele semblante angelical de outrora. Sentiu saudade dos tempos em que era livre, tempos de pouca preocupação e muita felicidade. Pouca coisa havia mudado desde sua época. Além do banco de cor amarela, foram acrescentadas também algumas árvores e jardins. Apenas o muro gritava diferença. Antes parecia maior, o via como uma fortaleza, aniquilando a existência de um mundo além daquelas fronteiras, hoje apenas uma construção. Lembrou-se de sua avó que lhe fazia almoços e doces e que sempre debruçava-se sobre a janela a olhá-lo, como quem guarda um tesouro. Sua madrinha que acostumou-o com bolos e café nos finais de tarde. Tios, tias, primos e amigos. Aquele lugar abrigava grande parte de sua história. Todas aquelas lembranças lhe trouxeram serenidade e a certeza de que enquanto criança era realmente feliz. A pouca luz deu-o mais privacidade e aconchego. Ligou o “Music Player” do celular e ao som de um MPB, pensou, sorriu... aquietou-se. Deixava mais uma marca, desta vez, não presa àqueles muros ou fixadas naquele solo, mas em sua pele, como uma tatuagem de traços finos e delicados... seu retorno.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Srta. Esperança, Dona Mãe e Sra. Sonho Realizado



A volta pra casa naquela noite de terça feira, pressenti, ia de ser diferente. Aquele lugar parecia já ter sido reservado para mim pelo destino. Sentei em pelo menos 2 bancos antes de chegar àquele que guardaria meu calor durante a viagem. Ao me acomodar, abri a janela para sentir aquele vento gelado e o sereno que continha aquela noite. Sentia-me só e parecia esperar por alguém. As três entraram em momento que estava distraído com o movimento dos carros e o andar desesperado das pessoas que por ali passavam. Duas sentaram-se à minha frente, enquanto a outra corria para meu lado. De logo, começaram a relatar sobre suas vidas. Tentei não me envolver naquela prosa tão particular. Não me pertencia. Nada sabia sobre aquelas estranhas à minha volta. Mas a minha presença parecia não incomodar a nenhuma delas, senti-me até parte daquele clã. A que primeiro falou exalava anseio e felicidade. Bastou algumas palavras para que eu percebesse que esta, logo, encontraria o matrimônio. Narrou sobre os preparativos e os planos; desenhou até seu estado pós a festa. Perdi-me naquele pensamento e segundos depois era outra que falava. Orgulhosa e totalmente dominada pela maternidade, exibia para as outras fotos de sua pequena. Todas pareciam muito envolvidas em cada historia ali mostrada. Emoção, amizade e carinho as envolviam e, pouco a pouco, a mim também. Dada a época, a pauta mudou para as festas de fim de ano. O balanço dos anos anteriores feito por elas eram, em sua maioria, positivos. Uma delas mostrava-se totalmente satisfeita e realizada. Ouvi que seu maior feito, desses últimos dois anos, fora ter entrado na faculdade. Tamanho era seu entusiasmo que quem a visse pensaria se tratar de obra faraônica. Podia-se ver através de seus olhos sua sinceridade. Levado por esses sentimentos, deixei-me conduzir por aquelas e sem perceber já podia reconhecer a tranquilidade e construções tao familiares daquela que tenho por “minha rua”. Levantei-me. E com um olhar de quem dizia adeus deixei-as para trás, mas com a certeza de que a esperança, o amor e os sonhos nunca me deixarão.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Fênix



Tentei arrancar de mim tudo que restou de você, cada vestígio. O gosto do seu beijo, o cheiro da sua pele o calor do seu abraço. Vã tentativa. Não posso apagar o passado, nem renunciar ao que senti. Em minha gaveta, afasto tudo que vem te lembrar. Tarefa mais árdua era apagar você da minha memória. Pensava: como posso estar tão só se outrora era tão feliz. Dois meses se passaram e levaram a dor que carrego em meu coração. Injusto é não ter tido explicação. Se fora por falta de amor, porque não dissestes? Fiquei à deriva da minha própria dor. Escravo desse sentimento que se entranhou em minhas veias. Tu me destes as costas, simplesmente abandonastes meu mundo. Chorei, chorei, entristeci e esqueci. Em meio à essas sensações enxerguei minhas virtudes e qualidades e me reergui, como uma fênix que ressurge das cinzas. Percebi que posso viver sem seu carinho. Se me perguntam de ti, indiferença. Se acaso lembro-me de um momento feliz ao seu lado, logo estou a pensar que estou apenas trilhando os primeiros passos do caminho da vida e muitos outros virão, mais intensos e avassaladores. A certeza que hoje tem morada em mim é a de que não é você que é bom demais pra mim, o brilho que sai hoje daquelas mesmas veias tristes é maior e mais forte do que seus olhos poderiam suportar.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Eu, o sol e o mar



O amarelo do sol, em muito, combinava com minha pele. A minha mente, intranquila,não se confundia com o mar, calmo e leve. Naquele momento só existiam eu,o sol...o mar. o cigarro acompanhava-me. O preto que o revestia, revelava o futuro incerto ,vacilante.
Viver é certo, é perigo constante. Errar, sofrer, amar e crer. Inerente ao homem e seu poder de razão também está a emoção. Estes, juntos, nos conduzem para uma aquarela de possibilidades, onde o branco é paz; o vermelho é paixão; e o preto... Nesse limítrofe entre a paz e a escuridão é onde está o amor, onde por vezes nos achamos perdidos, entre a loucura e a certeza. Mas hoje, renuncio ao alvo, ao rubro e ao negro. Quero apenas o azul do mar e o amarelo do sol, que me traduzem muito mais que signos, astros ou mapas.