quinta-feira, 23 de junho de 2011

Rosa dos ventos



A água percorreu seu corpo, como um doce elixir que livrava-o do veneno da quietação. Secou-se devagar. Seu corpo parecia ter sido tomado por estigmas. As palavras que havia pronunciado estavam presas por uma muralha construída pelo medo e pelo amor. Sentimentos tão distintos, mas que, peculiarmente, se uniram. Sentou-se na poltrona de madeira maciça, coberta por uma manta de tricô branca. Observou a noite púrpura e de poucas estrelas. Pensou que talvez elas também estivessem escondendo-se das suas próprias compaixões. A indiferença que cercava a sua relação o dilacerava, como um tigre que rasga as entranhas de sua presa. Baleado de um não-amor, camuflado por um bem-querer. Onde quis abrigo, encontrou desprezo; onde quis paixão, calmaria; onde queria um “para sempre”, outro “sempre acaba”. A brasa de um amor desmedido e alucinado foi anteparada por uma desventura que esbravejava monotonia e tristeza. Não pelo que tinha, mas pelo que restou: uma caixa de música, asilo de lembranças de um amor fascinante e inútil, a qual era preciso “dar corda” para funcionar, vista a sua incapacidade de operar-se por conta própria. Intolerável se mostrava essa sina de viver meio-amado. Merecia ganhar os caminhos e os amores, perder rumos e pudores. Jogar-se na estrada da vida, sem destino e sem razão, apenas conduzido pelo júbilo que ora estava anulado pela reserva do compromisso. Para onde quer que fugisse, as quatro direções apontavam para o mesmo destino: aquele estranho, mas tão familiar, sentimento de solidão. Perto de um longe e distante de tudo que sonhou para si. Foi então que decidiu não contentar-se com “meio” ou “quase”. Seria, então, um eterno insatisfeito, responsável pela rotação do seu próprio mundo e autor dos maiores e melhores dramas da sua vida.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Roupas, rotas e rotina


Um feixe de luz solar atravessou o vidro da janela, iluminando todo o seu rosto e anunciando um novo amanhecer e mais um dos intermináveis e exaustivos dias de sua vida. Nunca quisera assim conceber o nascer do sol. Os olhos, antes cerrados pelo sono, despertavam agora timidamente. Demorou alguns segundos para que seu subconsciente informasse a seu cérebro que havia chegado a hora de interromper a produção de sonhos e acordar. Entre bocejos, lamúrias e fadigas, decorrente do dia anterior, sentiu os músculos de suas costas contraírem-se, indicando sinais de estresse. Durante o café da manhã questionava-se sobre seu estilo de vida, se estava valendo à pena todo aquele desgaste psicológico, físico. A felicidade com que costumava começar o dia perdia espaço para a tristeza, quando em seu pensamento teciam-se os primeiros passos do seu roteiro diário. As horas se arrastavam e os dias pareciam sempre os mesmos. Pensava em tirar férias, dar uma ‘break’ na sua vida e dedicar-se a coisas que gostava de fazer com prazer. Lembrou-se dos tempos em que trabalho e diversão confundiam-se. A comparação é inevitável sempre que nos encontramos inconformados ou infelizes. Mordeu a maçã, lentamente, mastigando cada pedaço, infinitamente, na tentativa de postergar a sua saída e aproveitar cada segundo antes de fantasiar-se de pinguim e mais uma vez inserir-se no diário enfadonho de uma viagem sem sentido. Quando o nó de Windsor fechou-se em volta do seu pescoço, respirou fundo, armou-se de esperança e partiu, de mal grado, sentindo-se algoz da sua própria rotina e esperando a hora de, enfim, retornar.

sábado, 8 de maio de 2010

Passarela



Passa ele, passa ela, passo eu. E a cada passo, encurto a minha trajetória. A velocidade a que me disparo não permite a colisão com outros corpos. Contorço cada vértebra, cada membro, ocupando os espaços vazios daquele longo corredor. Meu destino é certo e objetivo. Minha pressa é constante e subjetiva. Afinal, só a mim importa chegar ao final. E indiferente é qual o ponto de partida. Na tentativa de não colidir, bloqueio meu corpo ao toque alheio, evito a energia emanada por outros seres. Contudo, o andar na passarela nem sempre é um correr constante, uma pressa desmedida. Às vezes, permito-me apenas caminhar, apreciar a vista. Deixo-me ser tomado pela adrenalina do perigo de um dia escorregar. Certo é que a passarela da minha jornada carrega chegadas e partidas, medos e coragem, sentimentos outros indecifráveis, que obstruem meu caminho ou prendem-se ao que carrego. Desautorizados, clandestinos. Em alguns trechos, encontro alegria, noutros, saudade. Mas a quero sempre assim, como um abismo, carregada de emoções, alimentada por um objetivo e que eu tenha sempre que correr para nunca cair.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Composições


De tudo que eras, pouco restou e muito se perdeu, pois perdida estava. A imagem hoje refletida no espelho dos meus olhos era falsa e, certamente, passageira. Acostumei-me a com ela sempre aprender. Do útil ao fútil. Neste novo enredo que construía preferiu a vilã à moçinha, já que agora descrente estava em finais felizes. Assisti a tudo, cada representação, cada ato daquela composição teatral sem manifestar-me. Sabia ser apenas por uma temporada. Desta vez, escolhi platéia à direção. A conhecia profunda e suficientemente bem para saber que debaixo de toda aquela indumentária, a mim estranha, ainda permanecia intacta sua essência. Tratava-se de atuação puramente amadora, daquelas que todos os grandes artistas submeteram-se (porque assim tinham que fazê-lo) antes de alcançar o estrelato. Como mero espectador, não podia, eu, assisti-la como se crítico fosse. Ela tentava fugir de tudo aquilo que um dia fora. Pormenorizou tudo aquilo que sempre manteve em primeiro plano. Parte dela esquivou-se do que era culto, dos seus livros, do seu verdadeiro mundo. Em caminho inexplorado, apenas seguiu, trilhando e trilhando. No topo dessa escalada, não foi contemplada com nenhuma vista paradisíaca ou por do sol memorável. Ao cansar, sentou-se, refletiu. Aquela aventura já não era mais excitante e o novo já não se fazia interessante. Numa noite em que um forte calor precedeu chuva, cheguei a sua casa e fui recebido com vinho e ópera. Sentados ao chão da sala, juntos, compusemos noite nossa, noite clássica. Voltara para o universo, para seu mundo, para meus braços. Estava novamente à deriva, porém, não de uma noite agitada, pessoas frívolas ou conversas sem rumo. Estava "à deriva... no firmamento".

segunda-feira, 1 de março de 2010

O sempre seguir em frente...



Parar. Mais que voltar à inércia, a capacidade de resistir aos impulsos trazidos por emoções cotidianas. Viver é nunca permanecer no marco inicial da existência. O passado arrasta-nos para o presente numa força superveniente ao nosso querer. Sem perceber, o caminho alonga-se para o futuro e o presente já é passado; e o passado, apenas lembranças. Somados, presente e passado, resultam num coeficiente “x”, indicando o futuro e para desvendá-lo, dúvidas não há, tem-se que analisar o que se que viveu e o que se vive, posto que somos hoje reflexo de nossas experiências. Nem sempre boas, nem sempre ruins, mas indubitavelmente, peças-chaves de um quebra-cabeça mutável, complexo e imensurável. Contudo, a emoção de viver cada minuto de situações imprevistas, previstas e indecifráveis não caberia na mais perfeita fórmula matemática, pois esse é o sentido de viver e a força impulsionadora desse nosso movimento e que nos faz não querer parar. Quem não consegue aprender com os ensaios da vida, estagna no tempo. Para aqueles que sabem viver, o tempo nunca é zero e o deslocamento final pertence a um ignoto finito. Forças contrárias podem nos empurrar para longe de nossos caminhos e objetivos, mas mesmo estas nos empurram para frente, para o futuro, para o novo. Talvez, diante desse caminho ainda inexplorado, possamos sentir desespero, fraqueza, medo, mas a vontade de viver e a perseverança devem sempre trilhar ao nosso lado. Elas ajudam a nos reerguer. A gente não sente que está vivo quando cai e sim quando levanta.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Insensatez mascarada


Chapéu preto com riscas de giz e uma máscara veneziana azul e roxa que brilhava insistentemente diante dos refletores que iluminavam as ruas naquela época. Estava pronto para adentrar na avenida. Toda a fantasia ajudava a assumir sua identidade naquela noite. Uma pessoa decidida e, estonteantemente, atraente. Roçou sua pele em alguns corpos quando embalado por aquele som carnavalesco. Uma figura tocou-lhe a mão. Indiferença, acanhamento. Foi quando decidiu que a timidez não haveria de caber, naquela noite, ao personagem que vestia e retribuiu o toque. Algumas poucas palavras ditas e seus lábios roçavam uns nos outros, fazendo-os sentir o gosto que carregam desconhecidos atrás das máscaras. Apenas um beijo, mas que despertou efeitos estonteantes de lança perfume. Dado o grande número de pessoas que habitam a cidade nesse festejo, acreditaram nunca mais ter seus corpos unidos novamente. Contudo, elementos indispensáveis a esta comemoração, serpentinas enlaçaram ambos no mesmo destino e foram derramados confetes em seus caminhos para promover um segundo encontro. A única marca que ela identificou foi o olhar dele. Alerquims insinuaram-se, lançaram-se sobre aquela, mas Colombina, não mais envolvida por aquele charme blasé, já reconhera seu verdadeiro amor, seu Pierrot. As cenas que seguiram inspiravam genuíno afeto, pele e desejo. Entregaram, naquele momento, seus corpos e corações, despidos de quaisquer disfarces ou dissimulações, como se entregassem a chave da cidade a um Rei Momo. Daquele segundo encontro, marcas deixadas pela mistura de anseio e ternura e um colar que as contas guardavam o suor de suas peles, vontade e juras de estar próximos carnalmente outras mais vezes. A incredulidade se fazia agora realidade, na rendição àquela louca e instantânea paixão; e o Carnaval, na folia e no balanço frenético de seus corpos.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Casualidade refletida


A primeira luz que viu quando entrou naquele clube refletira no imenso globo prateado e percorreu toda sua pupila, fazendo uma leitura óptica de tudo que desejava daquela noite. Entre corpos estranhos e agitados, seguiu em direção ao objeto que reproduzia a imagem de alguém feliz e saudável. A excitação de ver seu reflexo impulsionaria seu corpo de volta à pista de dança. Estendeu a mão a quem lhe fazia companhia. Diferentes faces, alguns shots da melhor tequila e um badalado house proporcionaram uma distração rápida para o inesperado. Ambos levantaram os olhares que se encontraram por segundos e tornaram a abaixá-los. Por segundos, o som da boate pareceu desaparecer, junto com aquelas pessoas. Os pensamentos confundiam-se diante da surpresa. Estava diferente daquele que conhecera. Respirou fundo antes de sentir uma mão delicada pousar em seu ombro e dar um leve aperto. Sua melhor amiga transmitia-lhe força e coragem. Sua imediata reação foi o abraço. Aquele peito colado ao seu trazia-lhe conforto. Agradeceu por tê-la ao seu lado naquela hora. Precisou de um cigarro para tragar aquele encontro. A fumaça que passava por entre seus lábios ganhando a atmosfera, aos poucos, levou consigo a insegurança que aquela casualidade lhe fez inspirar. Mais uns passos, passos de dança, passos de distância, reconheceu aquele mesmo corpo colado a outro. Suas bocas comprimiam-se. Encarou aquela cena enquanto um desconhecido lhe encarava. Com semblante enigmático e aparentemente inabalável deu as costas ao indesejável aos olhos e inaceitável para o orgulho. A noite seguiu o rumo esperado desde então. Luzes, flertes, glamour. A única surpresa foi o olhar de quem conhecia, atravessar seu corpo enquanto um estranho falava-lhe ao pé do ouvido.